Repasse cambial: como o dólar chega ao preço dos produtos no mercado e nas lojas

Dólar em alta não encarece tudo de uma vez nem na mesma proporção. Veja como funciona o repasse cambial para o seu bolso.
Quando o dólar sobe, é comum ouvir que os preços vão subir também. A relação existe, mas é menos direta do que parece: o câmbio chega ao preço de cada produto por caminhos diferentes, em prazos diferentes e em intensidades diferentes.
A resposta direta é: o repasse cambial é a parcela da variação do dólar que acaba aparecendo no preço final ao consumidor. Ele é maior em produtos importados, em itens com insumos cotados em dólar e em commodities exportadas, e costuma levar semanas ou meses para se completar. Já a queda do dólar costuma chegar ao preço de forma mais lenta e parcial.
Para entender por que a moeda sobe ou cai, veja também como a inflação americana impacta a cotação do dólar.
Por onde o dólar entra no preço
O primeiro caminho é o mais visível: produtos importados prontos, como eletrônicos, peças e brinquedos, são comprados em dólar. Quando a moeda sobe, o custo em reais sobe junto.
O segundo é o dos insumos. Muitos produtos fabricados no Brasil usam componentes, embalagens, fertilizantes ou trigo importados, ou matérias-primas cujo preço é referenciado em dólar. Aqui o efeito é indireto, mas atinge uma lista longa de itens.
O terceiro é o das commodities. Soja, milho, carne e café são vendidos para o exterior em dólar. Com a moeda alta, exportar compensa mais, e o produtor passa a cobrar no mercado interno preços mais próximos dos de fora, o que pode encarecer alimentos básicos.
Por que o repasse leva tempo
As empresas costumam ter estoques comprados com um câmbio anterior e contratos com preços combinados. Enquanto essa mercadoria não acaba, o custo não muda.

Há também o uso de proteção cambial (hedge) por empresas maiores, que travam o preço do dólar para os próximos meses e suavizam o impacto. Pequenos negócios, sem essa proteção, tendem a sentir e repassar mais rápido.
Outro fator é que as empresas observam se o aumento do dólar é passageiro ou duradouro. Se parecer temporário, muitas seguram os preços e absorvem parte do custo para não perder clientes.
Quais preços reagem mais ao dólar
Os mais sensíveis costumam ser eletrônicos, celulares, computadores, carros e peças importadas, além de itens ligados ao petróleo, como combustíveis e fretes. Alimentos que dependem de trigo, óleo e carnes exportadas também reagem.
Já serviços locais, como corte de cabelo, aluguel de uma loja de bairro ou mensalidades, dependem menos do câmbio e mais de salários e demanda interna.
O peso do dólar varia entre empresas e ao longo do tempo. Por isso, a regra "dólar subiu 10%, preço sobe 10%" quase nunca se confirma.
Por que a queda do dólar nem sempre barateia os produtos
O repasse da queda costuma ser menor que o da alta. As empresas relutam em reduzir preços porque a margem perdida na fase de alta precisa ser recomposta, e o consumidor, em geral, reclama menos de preços estáveis do que gosta de preços menores.
Além disso, a moeda mais barata convive com outros custos, como salários, aluguéis, energia e impostos, que não caem junto. O resultado é que o preço pode ficar estável mesmo com o dólar em queda. Quando há muita concorrência, como em eletrônicos e e-commerce, a redução aparece mais rápido. Veja o que costuma derrubar a moeda em o que faz o dólar cair frente ao real.
Como o consumidor pode se planejar
Se você pretende comprar um produto importado ou muito dependente do câmbio, acompanhar a tendência do dólar ajuda a escolher o momento. Alertas de preço e comparação entre lojas evitam pagar mais por causa de uma defasagem de preço.
Para itens do dia a dia, a melhor defesa é comparar marcas e embalagens, aproveitar promoções e evitar compras por impulso em períodos de pico do câmbio.
É comum que o custo de produtos de grande consumo reflita mais as commodities do que o dólar do dia. Por isso vale entender o efeito de por que as commodities movimentam a cotação do dólar.



