Dólar e preço da gasolina: como o câmbio chega à bomba

Dólar e petróleo mexem no preço do combustível, mas o caminho até a bomba é longo. Veja o que entra na conta e o que não entra.
Quando o dólar sobe, é comum ouvir que a gasolina vai subir também. A relação existe, mas ela é bem menos direta do que parece: entre a cotação do petróleo no mercado internacional e o preço que você paga no posto há refino, impostos, mistura de etanol e margens de distribuição e revenda.
A resposta direta é: o dólar afeta o preço da gasolina porque o petróleo é cotado em dólar, mas o valor na bomba também depende do preço fixado pelo produtor, de impostos, do etanol misturado e das margens. O repasse de variações do câmbio e do petróleo não é imediato, e muitas vezes acontece em degraus, quando o produtor decide reajustar. Por isso, o dólar sozinho não explica a gasolina.
O que compõe o preço da gasolina
O preço que aparece na bomba reúne várias parcelas. Há o valor cobrado pelo produtor ou importador, os tributos federais e estaduais (como PIS/Cofins e ICMS), o custo do etanol anidro que é misturado à gasolina, e as margens da distribuição e dos postos.
Essa composição varia ao longo do tempo e por estado, porque o ICMS é estadual e as margens dependem da região. Por isso, o mesmo litro pode custar valores diferentes em cidades vizinhas.
A parte que sofre influência direta do dólar e do petróleo é a do produtor. As demais respondem a impostos, ao etanol e à logística, e podem reforçar ou amortecer o efeito do câmbio.
O caminho do petróleo em dólar até o litro em reais
O petróleo é negociado no mercado internacional em dólar, e o barril tem cerca de 159 litros. Um exemplo ilustrativo, só do petróleo cru: com o barril a US$ 80, cada litro equivale a cerca de US$ 0,50. Com o dólar a R$ 5,50, isso dá aproximadamente R$ 2,77 por litro de matéria-prima.

Se o dólar sobe para R$ 6,00, o mesmo litro de petróleo passa a custar cerca de R$ 3,02, uma diferença de R$ 0,25. Esse valor não é o da gasolina, que passa por refino, impostos e margens, mas mostra o tamanho do efeito do câmbio na matéria-prima.
Se o preço do petróleo sobe, o efeito é parecido. Como os dois fatores se combinam, dólar alto e petróleo caro juntos pressionam bastante os custos.
Por que a bomba nem sempre acompanha o câmbio
O Brasil produz petróleo e tem grandes refinarias, mas importa parte dos derivados, em especial do diesel. A política de preços da principal produtora define quando e quanto repassar das variações externas. Reajustes costumam ser espaçados, e a empresa pode segurar aumentos por razões de mercado ou de política.
Para os importadores privados, o preço tende a seguir mais de perto o mercado internacional, mas eles respondem por uma parcela menor do abastecimento de gasolina.
Assim, é comum o dólar subir e o preço da bomba ficar parado por semanas, e depois subir de uma vez. O contrário também acontece, com quedas que demoram a chegar.
Etanol, impostos e margens também pesam
A gasolina vendida no Brasil leva uma porcentagem de etanol anidro, definida em lei e que já foi ajustada mais de uma vez. O preço do etanol depende da safra de cana, do açúcar no mercado internacional e do clima, e isso influencia a gasolina final.
Os impostos incidem como valor fixo ou percentual, e mudanças de alíquotas podem alterar o preço mais do que o câmbio. Em períodos em que governos reduzem ou aumentam tributos sobre combustíveis, o efeito sobre a bomba pode superar o do dólar.
As margens de distribuição e revenda variam com a concorrência e a logística, e explicam por que regiões distantes têm preços maiores.
O que isso significa para o seu bolso e para a inflação
Combustíveis pesam no orçamento direto, no abastecimento do carro, e de forma indireta, no frete e nos preços de alimentos e produtos. Por isso, variações do dólar e do petróleo aparecem na inflação com certo atraso.
Para decidir entre etanol e gasolina em carros flex, uma regra prática é que o etanol compensa quando custa até cerca de 70% do preço da gasolina, por rodar menos quilômetros por litro. Vale checar o consumo do seu carro, porque a relação muda de modelo para modelo.
Acompanhar o dólar ajuda a entender tendências, mas não a prever o preço do posto no dia seguinte. Para economizar, compare postos e use aplicativos de preço, que costumam mostrar diferenças relevantes mesmo na mesma região.



